Inclusão sem estrutura: transversalidade, justiça epistêmica e a (re)configuração do currículo

Conteúdo do artigo principal

Ery Jardim

Resumo

Este ensaio teórico examina como a inclusão se inscreve no currículo brasileiro e por que, apesar de um arcabouço normativo robusto, tende a não se traduzir em reorganização efetiva do conhecimento escolar. Parte da distinção entre acessibilidade, integração e inclusão para sustentar que a inclusão, quando tratada como tema transversal difuso, permanece declarada em toda parte e institucionalizada em nenhuma. Argumenta-se que essa difusão não é falha acidental de implementação, mas a forma que a inclusão assume quando o currículo permanece subordinado a lógicas externas, produtiva e normalizadora, em vez de constituir um projeto epistêmico próprio. O estudo é um ensaio teórico-crítico operacionalizado por análise documental dos marcos curriculares e de inclusão brasileiros, lidos por triangulação teórica entre a teoria crítica de currículo, o debate sobre a diferença e a justiça epistêmica. Propõe-se um critério estrutural para distinguir a reconfiguração curricular inclusiva da inclusão cosmética: uma inclusão tem forma curricular quando reorganiza a seleção, a sequência e a avaliação do conhecimento, reconhecendo de modo estruturado a pluralidade epistêmica contra o epistemicídio. Conclui-se que um currículo incorpora a inclusão não pelos valores que declara, mas por deixar de tratá-la como valor transversal e passar a operá-la como princípio de justiça epistêmica que reorganiza o que conta como conhecimento legítimo. Aplicado a um panorama de onze países latino-americanos, o critério revela três padrões de inscrição curricular e um diagnóstico regional: a inclusão raramente reorganiza o currículo comum, operando antes como trilha paralela para populações indígenas ou como tema transversal sem estrutura.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Detalhes do artigo

Como Citar
Jardim, E. (2026). Inclusão sem estrutura:: transversalidade, justiça epistêmica e a (re)configuração do currículo. EduSer, 18(2). https://doi.org/10.34620/eduser.v18i2.455
Secção
Artigos
Biografia Autor

Ery Jardim, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, Brasil.

Ery Jardim é pós-doutorando em Engenharia de Produção no SIP Program da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É doutor em Educação pela Universidade La Salle (Unilasalle), mestre em Educação pela University of the People (UoPeople) e mestre em Design Estratégico pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Suas pesquisas concentram-se em currículo, inclusão e justiça epistêmica, com atenção à relação entre educação, conhecimento e poder.

Referências

Adorno, T. W. (2003). O ensaio como forma. In T. W. Adorno, Notas de literatura I (pp. 15-45). Duas Cidades; Editora 34.

Apple, M. W. (2006). Ideologia e currículo (3ª ed.). Artmed.

Argentina. (2006). Ley nº 26.206, Ley de Educación Nacional. Boletín Oficial de la República Argentina.

Arroyo, M. G. (2011). Currículo, território em disputa. Vozes.

Ball, S. J. (2001). Diretrizes políticas globais e relações políticas locais em educação. Currículo sem Fronteiras, 1(2), 99-116. https://gestaoeducacaoespecial.ufes.br/sites/gestaoeducacaoespecial.ufes.br/files/field/anexo/ball.pdf

Bolívia. (2010). Ley nº 070, Ley de la Educación “Avelino Siñani-Elizardo Pérez”. Gaceta Oficial del Estado Plurinacional de Bolivia.

Booth, T., & Ainscow, M. (2002). Index for inclusion: developing learning and participation in schools. CSIE.

Bowen, G. A. (2009). Document analysis as a qualitative research method. Qualitative Research Journal, 9(2), 27-40. https://doi.org/10.3316/QRJ0902027

Brasil. (1996). Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União.

Brasil. (2003). Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394/1996 para incluir no currículo oficial a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira. Diário Oficial da União.

Brasil. (2008a). Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394/1996 e a Lei nº 10.639/2003 para incluir a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Diário Oficial da União.

Brasil. (2008b). Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial.

Brasil. (2015). Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência. Diário Oficial da União.

Brasil. (2017). Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017. Altera a Lei nº 9.394/1996 e estabelece mudanças na estrutura do ensino médio. Diário Oficial da União.

Brasil. (2018). Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação.

Cellard, A. (2008). A análise documental. In J. Poupart et al., A pesquisa qualitativa: enfoques epistemológicos e metodológicos (pp. 295-316). Vozes.

Chile, Ministerio de Educación. (2021). Bases curriculares: Lengua y Cultura de los Pueblos Originarios Ancestrales (1º a 6º básico). Unidad de Currículum y Evaluación.

Colômbia. (1998). Decreto nº 1122, por el cual se expiden normas para el desarrollo de la Cátedra de Estudios Afrocolombianos. Diario Oficial.

Denzin, N. K. (1978). The research act: A theoretical introduction to sociological methods (2.ª ed.). McGraw-Hill.

Equador, Ministerio de Educación. (2013). Modelo del Sistema de Educación Intercultural Bilingüe (MOSEIB). Acuerdo Ministerial nº 0440-13.

Gay, G. (2018). Culturally responsive teaching: Theory, research, and practice (3.ª ed.). Teachers College Press.

Gomes, N. L. (2012). Relações étnico-raciais, educação e descolonização dos currículos. Currículo sem Fronteiras, 12(1), 98-109. https://www.apeoesp.org.br/sistema/ck/files/5_Gomes_N%20L_Rel_etnico_raciais_educ%20e%20descolonizacao%20do%20curriculo.pdf

Guatemala. (2004). Acuerdo Gubernativo nº 22-2004, Generalización de la Educación Bilingüe Multicultural e Intercultural en el Sistema Educativo Nacional. Ministerio de Educación.

Jardim, E. (2025). Educação 6.0: fundamento de um projeto estratégico de uma Nação [Tese de doutorado em Educação, Universidade La Salle]. https://repositorio.unilasalle.edu.br/bitstream/11690/4505/1/document%20%2829%29.pdf

Lopes, A. C., & Macedo, E. (Orgs.). (2002). Currículos: debates contemporâneos. Cortez.

Mantoan, M. T. E. (2003). Inclusão escolar: o que é? por quê? como fazer? Moderna.

Meneghetti, F. K. (2011). O que é um ensaio-teórico? Revista de Administração Contemporânea, 15(2), 320-332.

México, Secretaría de Educación Pública. (2022). Plan de estudio para la educación preescolar, primaria y secundaria. SEP.

Nicarágua. (2006). Ley nº 582, Ley General de Educación. La Gaceta, Diario Oficial.

Pacheco, J. A. (2009). Currículo: entre teorias e métodos. Cadernos de Pesquisa, 39(137), 383-400. https://www.scielo.br/j/cp/a/jbZsTv3hJLzp9hHcG9ngxDK/?lang=pt

Paraguai. (1992). Constitución Nacional de la República del Paraguay. https://pdba.georgetown.edu/Parties/Paraguay/Leyes/constitucion.pdf

Peru, Ministerio de Educación. (2018). Modelo de Servicio Educativo Intercultural Bilingüe (MSEIB). Resolución Ministerial nº 519-2018-MINEDU.

Sacristán, J. G. (2000). O currículo: uma reflexão sobre a prática (3ª ed.). Artmed.

Santomé, J. T. (2013). Currículo escolar e justiça social: o cavalo de Troia da educação (A. Salvaterra, Trad.). Penso. (Obra original publicada em 2011)

Santos, B. de S. (2007). Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos Estudos CEBRAP, (79), 71-94. https://www.scielo.br/j/nec/a/ytPjkXXYbTRxnJ7THFDBrgc/?lang=pt

Silva, T. T. da. (2005). Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo (2ª ed.). Autêntica.

Skliar, C. (2003). Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro não estivesse aí? DP&A.

Young, M. F. D. (2016). Por que o conhecimento é importante para as escolas do século XXI? Cadernos de Pesquisa, 46(159), 18-37. https://www.scielo.br/j/cp/a/qjWsWsQZNLtJbGYjhyhYfXh/?lang=pt